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Giordano Bruno (1550-1600)

Como no Renascimento do século XII, o alimento para novas idéias proveio em grande parte do surgimento de traduções latinas de textos antigos. Diversos textos de Platão, inacessíveis desde séculos, ganharam tradução neste período. O mesmo ocorreu com o Corpus Hermeticum, texto do século II ao qual se atribuiu muito maior antigüidade, fazendo com que a antiga doutrina do Hermetismo tivesse grande prestígio no Renascimento.

Em sua prolixa obra, Bruno propunha uma profunda reforma filosófica e religiosa que, levada às últimas conseqüências, destronaria a Igreja de sua hegemonia com relação ao conhecimento. Sua principal fonte literária para sua postura extremamente iconoclasta foram os escritos tidos como antigos e traduzidos à sua época. Bruno foi fortemente influenciado pelo texto Corpus Hermeticum, a partir do qual propunha sua reforma. Este texto data do século II d.C., mas se atribuía erroneamente uma antigüidade muito maior, contemporânea à prisca época de Moisés. Bruno enxergava na Igreja Católica uma realização de uma das profecia do Corpus Hermeticum segundo a qual a verdadeira religião seria destruída. Eis um trecho deste antigo texto:

``E, no entanto, como aos sábios convém conhecer de antemão as coisas futuras, há uma que é preciso que conheças ......as trevas serão preferidas à luz, se achará mais útil morrer do que viver, ninguém mais levantará os olhos para o céu ......as crenças ...segundo as quais a alma é imortal por natureza ...serão apenas motivo de riso ...Inclusive, creia-me, será um crime capital, segundo os textos da lei, o de estar dedicado à religião do espírito ...'' (Corpus Hermeticum, p. 106).

Na Leitura de Bruno, conforme estudo atual de Frances Yates, o próprio cristianismo seria a religião das trevas anunciada por Hermes Trimegisto, o protagonista do Corpus Hermeticum. Daí provinha o permanente tom de desafio de Bruno, do qual se impregna toda sua obra, e que terminou por lhe custar a vida. Sua cosmologia propunha um universo infinito com ``inumeráveis sóis semelhantes ao nosso''. Seus argumentos a respeito da infinitude do universo e da mobilidade da Terra são mais filosóficos e teológicos do que astronômicos, como vemos nos seguintes trechos:

...``...Porque frustrar a capacidade infinita, defraudar a excelência da divina imagem, que devia antes resplandecer num espelho ilimitado, segundo seu modo de ser infinito e imenso'' (Do Infinito, Universo e Mundos, p. 39)

``A terra se move para que se possa renovar e nascer novamente, não podendo perdurar para sempre sob a mesma forma ...'' (Do diálogo ``Ceia da quarta-feira de cinzas'' [Cena delle Ceneri] de Bruno)

Figura: Frontispício de Do Infinito, Universo e Mundos de Bruno.
Frontispício de 'Do Infinito, Universo e Mundos', de Bruno.

As observações de Bruno ecoam, de fato, um trecho do Corpus Hermeticum onde se trava o seguinte diálogo entre o lendário Hermes Trismegisto e seu discípulo:

- ``Mas a Terra, ao menos, não parece imóvel ...?

- ''...ao contrário, única entre todos os seres, ela é ao mesmo tempo sujeita a uma multiplicidade de movimentos e estável. Não seria ridículo supor que esta nutriz de todos os seres estivesse imóvel, ela, que causa o nascimento de todas as coisas?'' (Corpus Hermeticum)

Depois de demorado processo, Bruno terminou por ser queimado vivo em Roma como herege no ano de 1600. Conta-se que no dia seguinte viu-se pichado em um muro: ``Agora ele sabe a verdade ...''



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