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Nascimento das Universidades (séc. XIII)

Fruto da intensificação da vida urbana, as Universidades tiveram como ponto de partida uma estrutura análoga às corporações de ofício (chamadas de universitas). Gradualmente assume o papel de centralizadora do conhecimento, fórum de debate e difusão de idéias. Sua história aos poucos confunde-se com a própria história do pensamento, passando a assumir um virtual monopólio. Até século XII o ensino era monopolizado pela igreja. Aos poucos, este poder é delegado ao chanceler, cujo poder diminui com o tempo. Com o crescimento do número de alunos, surge a licença para lecionar (licencia docendi) delegada a cidadãos leigos.

A Universidade de Paris foi fundada 1170 a partir da escola da catedral de Notre Dame. Oxford, no mesmo período. Em 1219, o chanceler perde poder sobre a Universidade de Paris, que se torna independente do clero. Rebeliões a afastam também do poder real, e a Universidade conquista novos privilégios, essenciais de sua identidade:

  • autonomia jurisdicional
  • direito de greve e de secessão
  • monopólio da atribuição dos graus universitários

Os estudos neste período seguiam a seguinte organização:

  • Ensino de base: artes liberais [ver adiante] (14 -20 anos)
  • Bacharelado (duração de cerca de 2 anos)
  • Doutoramento (idade mínima ao redor de 35 anos)

As ``sete artes liberais'' seguiam a estrutura de organização do conhecimento proposta pelo filósofo romano Boécio (480-524 d.C.):

Trivium (``três vias''):
compreendendo as disciplinas Lógica, Retórica e Gramática.
Quadrivium (``quatro vias''):
Aritmética, Geometria, Astronomia e Música.

Existiam, como até hoje, exames para a obtenção de grau. Citamos como exemplo o da Faculdade de Direito em Bolonha (cf. J. le Goff p. 87-88):

O candidato era apresentado ao Reitor, ao qual jurava obedecer os estatutos e não tentar corromper os examinadores. Na manhã do exame, depois de ouvida a missa, o candidato comparecia diante de um colegiado de doutores que lhe entregavam dois trechos de textos para comentar. Depois, retirava-se para preparar a exposição que faria em lugar público (normalmente a Catedral), diante de um júri de doutores. Depois do comentário exigido, respondia a perguntas dos doutores, que se retiravam para deliberar, voltando em seguida para proclamar os resultados.

Figura: O exame de doutoramento na universidade medieval. a. Estudante preparando-se para a dissertação. b. exame público (de Le Goff, Jacques, Os Intelectuais na Idade Média)
O exame de doutoramento na universidade medieval

Em seguida, vinha o exame público. Conduzido com pompa a Catedral, o licenciado fazia um discurso e lia uma tese sobre um assunto de Direito que defendia contra estudantes que o atacavam, representando pela primeira vez o papel de mestre numa disputa universitária. Aprovado, recebia as insígnias de sua função: um anel de ouro, um gorro simbólico etc. Parte do cerimonial deste doutoramento subsiste na Universidade até os dias de hoje.

Após o exame, havia uma comemoração coletiva (às expensas do recém laureado), selando a comunhão espiritual da ``corporação'' universitária e simbolizando a admissão do novo membro em seu meio, ritual originário das atuais ``calouradas'' (v. Le Goff p. 89). Com o surgimento de novas demandas associadas à crescente vida urbana, as Universidades incorporaram certo grau de especialização no programa, que se volta às diversas Faculdades (Direito, Medicina, Teologia etc).

A Universidade tornou-se polo criador de literatura científica especializada. Instituiu-se o costume de publicar livros (copiados) chamados de exemplares que continham a matéria ministrada (``apostilas''), copiadas à mão. Com o surgimento da imprensa, a divulgação de novos trabalhos científicos se acelerou, diminuindo o tempo necessário para a difusão e o surgimento de comentários, refutações e extensões desses trabalhos.

Com a intensificação da vida urbana, o desenvolvimento laico e autônomo da Universidade e a difusão de livros impressos, encontravam-se reunidas, no final da Idade Média, as condições para a eclosão da uma rápida transformação cultural que seria o Renascimento.



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